Ao entrar, Tom dirigiu-se para o piano. Esta noite não tentaria compôr mais canções. Tinha de optar por um repertório conhecido; afinal, era pago para tocar algo que agradasse aos clientes. Olhou de relance para o bar escuro e taciturno, decidiu-se pelo Nocturno #1 em Sol Menor de Chopin, e sentou-se no banco do piano.
Quando começou a tocar, a porta do bar abriu-se. Entrou uma senhora nos seus 50, envolta por um casaco de peles, que cumprimentou o barman e se sentou num banco à sua frente. Tom conseguia ouvir com clareza, como em todas as noites, sem falhar, a sua voz enrouquecida pelo tabaco e pela bebida.
- What will it be this evening, Constance?
- Bourbon as always, Frank.
- Coming right up.
Tom tocou durante toda a noite, no meio dos seus pensamentos. Conseguia tocar sem se desconcentrar ao mesmo tempo que pensava noutras coisas. Podia dar a impressão de estar totalmente ausente e, no entanto, estar a captar todos os movimentos à sua volta. Reparou que Mrs. Lawrence continuava ao balcão, e que conversava com um jovem turista português que a escutava com avidez. Constance Lawrence apertava contra si o espesso casaco de peles, talvez por se tratar do único elemento que a diferenciava dos restantes habitués patéticos e tristes do bar.
Conversava com o jovem na sua língua materna, pois quando era mais nova tinha sido actriz numa companhia e tinha vivido em Portugal por uns anos. De vez em quando interrompia o seu discurso para levar o cigarro à boca. Parecia uma antiga diva de cinema, pensou Tom. Fascinante. Dava gargalhadas graves depois de soprar o fumo por entre os seus lábios pintados de vermelho. Falava num português com algum sotaque, mas muito compreensível.
- É exactamente como te digo, sweetheart. O melhor momento na vida de uma pessoa pode se tornar no maior desastre que alguma vez lhe aconteceu.
Mrs Lawrence ajeitou o casaco de peles e bebeu o resto do bourbon que estava no seu copo. Com um gesto com a mão pediu outro. Tossiu, e deu outra baforada no seu cigarro. O turista português olhava-a, intrigado. Tom ouvia-a, invisível enquanto tocava.
- Olhemos para o meu marido por exemplo: quando o conheci, ainda era casado. A mulher estava muito doente, com um cancro do pulmão, mas ele não estava particularmente infeliz por isso. Quando nos encontrávamos nunca me falava dela e quando morreu não notei grande diferença no seu comportamento. Quando lhe perguntei acerca dela, apenas disse: “É desprezível e não merece sequer que falemos nela”. Nunca falava da doente dessa maneira em público por achar que iam tomá-lo por insensível. Por detrás do cancro, continuava a estar aquela mulher que sempre o tinha tratado mal.
» O Lou era um escritor muito conhecido, disseram-me pouco depois. Tinha escrito a sua obra prima há pouco tempo, e estava a ser um sucesso entre os críticos e o público. Não podia ter sido melhor para a carreira dele. Quando a mulher morreu, ele quis que eu fosse viver com ele de imediato. Achei que ainda era muito cedo para isso, e não conseguia perceber o que quereria ele com uma actriz pobre como eu. Mas Lou acabou por convencer-me, e eu gostava tanto dele que me deixei convencer. Tinha sido tão maltratado, e precisava que eu o tratasse bem, como merecia. No mesmo ano em que o conheci, casei-me com ele. E sem nunca ter lido o livro pelo qual todos o adoravam.
» Certo dia quando Lou não estava, por razões de trabalho, peguei no livro. Li-o e compreendi porque o admiravam tanto. Nunca li muito, não era intelectual para analisar a sua obra, admito, mas achei o livro belíssimo. Enquanto lia ia sendo tomada por uma tristeza imensa. Apercebi-me que naquele mundo interior de Lou não havia lugar para mim. As mulheres (ou antes, uma única mulher fragmentada nas muitas personagens) eram maldosas, ausentes, cruéis e hipócritas. Provocavam no personagem principal um amor-paixão tão conflituoso e profundo. Nessa noite, quando chegou a casa, Lou encontrou-me a chorar na cama; viu o livro aberto sobre a mesa e não disse nada.
» Durante o ano seguinte não foi capaz de escrever. Os críticos literários, os jornais, todos aguardavam ansiosos pelo seu regresso com um novo livro. Lou escreveu alguns contos, até mesmo ínicios de capítulos, mas acabava sempre frustrado, e a arremessar o copo de whisky que tinha sempre ao seu lado quando escrevia. Uma noite chegou a destruir a secretária, e a fechar à chave a porta do escritório. Nunca falou comigo sobre isso, é provável que não considerasse a minha opinião relevante, e julgava que eu não o iria compreender. Mas eu percebi o que se passava, não por me ter tornado inteligente de repente, mas por ser bastante óbvio. Lou tinha-se apercebido que tinha escrito aquele livro com tudo o que podia dar de si, num rasgo de incomparável, irrepetível genialidade. Nada que pudesse escrever a seguir iria satisfazer ou exceder as expectativas que tinham em relação à sua escrita. E o peso dessas expectativas esmagava-o.
» Lou fazia todos os dias o mesmo. Bebia, fumava, praguejava e saía porta fora sem dizer para onde ia. Voltava muito tarde, e a porta do escritório continuou trancada durante meses. Não escrevia com o medo de ler o que tinha acabado de escrever e aperceber-se que afinal não tinha talento nenhum. E não se podia dar ao luxo disso, quando vivia com o dinheiro que a sua escrita lhe trazia. Uma pessoa não podia ser um quase-pulitzer e depois chegar à conclusão que o sonho de ser escritor tinha sido apenas um mau investimento. Simplesmente não podia.
» Escrever continuou a ser a coisa mais importante para ele durante os cinco anos seguintes, apesar de não ter escrito nada durante este periodo. Era mais importante para ele do que eu, suponho. Escrever tornara-o respeitado por todos. Tinha sido a forma com que lidara com o ódio que sentia pela sua enferma, insuportável e ressequida mulher. Havia dias em que não me dirigia a palavra, como se não me visse. Desprezava a vida tranquila e feliz que lhe proporcionava. Vi que preferia a fome à satisfação, porque pelo menos a fome despertava-lhe algum desejo. Era um pobre insaciável em frente a uma mesa cheia, a desdenhar da comida.
» Uma noite depois de um dos seus passeios nocturnos, chegou a casa com a camisa semi-rasgada e com um corte na mão. Corri para ajudá-lo, preocupada. Nesse momento, começou a gritar comigo, dizendo que era demasiado boa para ele, que meu amor não vinha carregado de contradição e camadas, era simpático e não lhe dava material com que trabalhar. Nessa noite gritei-lhe de volta, pela primeira vez. Disse lhe que se ele se tinha de basear sempre na realidade para escrever o que quer que fosse, e que se tinha de experienciar por si uma coisa para depois escrever sobre ela, que ele não possuía talento nenhum. Fui para a cama, zangada e amarga e não o senti deitar-se ao meu lado. Olhei para o seu livro, para sua obra prima, em cima da prateleira, e tomei uma decisão. No dia seguinte, levantei-me, peguei num dos seus cigarros e acendi-o.
» Passei a traí-lo, ou a fingir que o traía. Saía todas as noites e chegava muito tarde. Deixei de ser agradável ao falar-lhe, e passei a atacá-lo verbalmente sempre que tinha a oportunidade. Criticava todos os seus hábitos e comecei a gastar o seu dinheiro. Uma semana depois, caminhei discretamente pelo corredor, e vi que a porta do escritório estava entreaberta. Ouviu-se o som da máquina de escrever durante horas, durante dias. Houve noites que esse som não me deixava dormir.
Mrs. Lawrence voltou a tossir, desta vez com mais força. Tirou um cigarro da mala, e Frank estendeu-lhe um isqueiro. Tom foi tocando enquanto que, um a um, os clientes iam saindo pela porta que abria e fechava, e voltava a abrir, balançando até fechar.